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DOM VIÇOSO – O SANTO DE MINAS

   234 ANOS DE NASCIMENTO DE DOM VIÇOSO – O SANTO DE MINAS

POR MERANIA CAMÊLO

Dom Antônio Ferreira Viçoso, nasceu em Peniche, Portugal, em 13 de maio de 1787. Em sua cidade natal há o Largo do Bispo de Mariana. Dom Viçoso faleceu na Colina da Cartuxa, em 7 de julho de 1875, pobre e respeitado por seu legado e com fama de santidade.

O primeiro processo de beatificação aberto em Minas é o de Dom Viçoso. Foi iniciado por Dom Silvério Gomes Pimenta. O primeiro bispo negro do Brasil, Dom Silvério, se formou no Seminário de Mariana graças ao empenho do Dom Viçoso que custeou seus estudos. Trata-se de uma época em que era difícil para os negros porque não tinham acesso às escolas, inclusive Seminários. Durante 60 anos, o processo ficou parado. Na década de 1960, Dom Oscar de Oliveira o reabriu.

Muito antes de morrer, os fiéis já acreditavam na santidade de Dom Viçoso. Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema “Santo Particular” para homenageá-lo como o santo da devoção de seu pai. A cidade de Viçosa recebeu este nome em sua homenagem. Há famílias que incluíam a palavra Dom Viçoso no nome em seus filhos. Assim, reverenciavam aquele que foi a primeira voz em Minas a gritar contra a escravidão.

Segundo o prof. Maurílio Camêllo responsável pela Positio super virtutis et fama sanctitatis (Exposição sobre as virtudes e fama de santidade), que integra o Processo de Beatificação, “a primeira parte da vida de D.Viçoso nessa segunda pátria (1820-1843) é dedicada aos trabalhos de educador em colégios (Caraça, Jacuecanga-SP e Campo Belo) e missionário em paróquias, especialmente da Província de Minas Gerais”. Conservaram-se dele mais de quinhentas cartas: importantes informações sobre a sociedade mineira do século XIX, conforme trabalho do prof. Maurílio Camêllo.

Era um homem iluminado e avançado para seu tempo. Preocupado com o procedimento dos homens, mandou buscar em Paris, em 1848, as Filhas da Caridade, educadoras francesas, para criar, em Mariana, o Colégio Providência, primeira escola feminina de Minas Gerais. É dele a seguinte frase: “Somente educando a mulher, oferecendo-lhe uma boa condição cultural, é que teremos uma sociedade mais civilizada e preparada para dar à pátria cidadãos completos. Não vos esqueçais de que a mulher, sobretudo a mãe, será sempre a primeira mestra”.

Segundo o prof. Maurílio autor do livro “Reforma do Clero em Minas no século XIX”, “D. Viçoso restaurou o Seminário de Mariana, material e pedagogicamente, tornando-o um dos principais centros de estudos de humanidades no país. Como bispo, visitou por três vezes, a cavalo ou de liteira, todo o território da diocese, na época, superior ao da França. O bispo desenvolveu por 31 anos, longo e profícuo trabalho pastoral, reformando o clero, animando a vida religiosa da diocese, construindo casas de educação e asilos, defendendo a autonomia da Igreja contra as intervenções abusivas do poder civil (regime do Padroado) e contra as agressões do liberalismo e da maçonaria”.

Em 13 de dezembro de 2007, na Catedral de Mariana, o Arcebispo de Mariana e então presidente da CNBB, D. Geraldo Lyrio Rocha, instalou o Tribunal Eclesiástico para exame e avaliação de suposto milagre, condição canônica para beatificação de D.Viçoso. De acordo com a Arquidiocese, trata-se da primeira sessão de um terceiro processo.

O milagre legitimamente comprovado, segundo as normas da Santa Sé, é uma exigência relevante e demonstra a aceitação divina para este pleito da Igreja. Se aprovado este último processo referente ao milagre, o Servo de Deus será distinguido com o Decreto Pontifício da Beatificação que lhe permite um culto limitado, restrito a uma determinada região. A última fase, a canonização, propõe como modelo de santidade à Igreja Universal aquele Venerável, anteriormente beatificado.

A primeira parte do processo, de caráter histórico, encerrou-se com a aprovação pela Santa Sé da Exposição escrita pelo historiador e filósofo prof. Maurílio Camello, abordando a vida e personalidade de D.Viçoso conhecido por seu humanismo e por lutar contra a escravidão. Além do mais, era profundamente preocupado com o meio ambiente. Desde que chegou ao Brasil, em 1820, ele já escrevia e pregava contra as queimadas e o desmatamento.

Dom Viçoso foi ordenado sacerdote pela Congregação da Missão, em 1818, na Sé Patriarcal de Lisboa. Em 1819, o Superior da Congregação da Missão, atendendo a pedido de Dom João VI, para que mandasse sacerdotes para o Brasil, enviou o jovem Padre Viçoso e seu co-irmão Padre Leandro Rabelo de Castro. Foram encaminhados ao interior de Minas, a um edifício de sólida construção, deixado pelo ermitão Irmão Lourenço para que fosse instalado ali alguma obra de ação social. Naquele local, os dois padres fundaram o Colégio do Caraça de onde saíram, com o passar do tempo, figuras importantes para a história nacional, como os ex-presidentes Affonso Penna e Arthur Bernardes.

Em 1843, Padre Viçoso foi nomeado 7º Bispo de Mariana, por apresentação do Imperador Dom Pedro II, pois, no Brasil, àquela época, vigorava o regime de Padroado, ou seja, a Igreja Católica era unida ao Estado.

Quanto à escravatura, D.Viçoso sempre protegia os negros, escrevia e pregava a favor da abolição do regime escravocrata. Publicou artigos e opúsculos, além de sermões e catequeses que compõem hoje o acervo do Arquivo Arquidiocesano de Mariana.

D.Gil Moreira, ex-bispo de Jundiaí-SP, hoje arcebispo de Juiz de Fora, no dia da sua posse no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, em 2007, deu um depoimento sobre a vida do bispo: “D.Viçoso, ao tomar posse como bispo de Mariana, proibiu os padres de serem proprietários de escravos e pregava contra esta grande injustiça social. Os negros residentes em Mariana, em agradecimento a ele, quando de sua chegada à cidade, lhe prestaram uma homenagem. Levaram para o bispo feixes de lenha, enrolados em cipó de São João, no Palácio Episcopal e dançaram para D.Viçoso.”

Ainda citando a vida de D. Viçoso, escreveu D.Gil: “ao receber alguma vocação adulta no Seminário, perguntava primeiro se o candidato tinha escravos e se não quisesse libertá-los antes do ingresso, não o aceitava. Foi o que aconteceu com certo advogado que se apresentou para receber as ordens religiosas. Perguntado se possuía escravos, respondeu afirmativamente. E se estava disposto a libertá-los, sua resposta foi negativa, impedindo-lhe D.Viçoso, em razão disto, a ordenação sacerdotal”.

Assim viveu o homem que revolucionou a formação do povo mineiro, no Século XIX. Era a única voz de Minas ouvida pelo Imperador D.Pedro II, expressando sempre a este sua opinião com firmeza e dignidade.

Pequenino e profundo, o poema “Santo Particular” vale a pena ser lido.

“Santo Particular” – Carlos Drummond de Andrade

O santo da família

Humilde e forte, quem pode ele

No céu mineiro

Áureo de legendas?

Não é canonizado? Tanto faz.

E é santo à mão: nosso quase vizinho de Mariana.

“Santinhos”, “bentinhos” encarnados

Não reproduzem sua imagem.

Nem verônica nem dia de folhinha

Fazem propaganda deste santo

Mas ele é santo – papai que sabe – afirma.

Dom Viçoso, na alpestre

Cartuxa de Mariana

Fica entre a gente e o Paraíso

Resolvendo os negócios de papai.

Publicado em: 21/05/21


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